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PaTrO

Sexta-feira, Março 17, 2006

Como deter a Malária



Erradicada de muitos países, a doença persiste em regiões pobres. Métodos de tratamento e prevenção podem acabar com ela

Há muitos anos, em Gâmbia, um menino de 2 anos chamado Ebrahim Samba quase morreu de malária. Hoje, ele se recorda disso toda vez que olha no espelho. Sua mãe - que já havia enterrado outros filhos antes - fez cortes em seu rosto numa tentativa desesperada de salvá-lo. O garoto sobreviveu e mais tarde veio a se tornar o diretor regional da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Obviamente, não foi a sangria que salvou Samba. A questão é: o que foi então? Teria sido a variedade específica do parasita que o infectou, sua constituição genética ou imunológica, ou sua situação nutricional? Depois de séculos de combate à malária - bem-sucedido na maior parte do mundo - é impressionante o número de dúvidas que restam sobre esse velho flagelo. Contudo, há motivo para esperança. Pesquisadores estudam sobreviventes da doen-ça e rastreiam várias pistas para desenvolver vacinas. E o que é mais importante, recursos comprovadamente eficazes, como mosquiteiros para cama tratados com inseticida e outras estratégias antimosquito, aliadas a uma nova combinação de drogas com uma tradicional erva chinesa, estão sendo adotados com maior intensidade.

Nos próximos anos, o mundo precisará de todas as armas que puder recrutar contra a malária. Afinal, essa doença, além de matar, bloqueia o desenvolvimento econômico e humano. Combatê-la tornou-se um imperativo internacional.


Vilão Africano
Quatro espécies principais do gênero Plasmodium, o parasita da malária, podem infectar o homem, e pelo menos uma delas ainda abrange todos os continentes, com exceção da Antártida. Na virada do século passado, a Ásia registrava o maior número de doentes e mortes. Contudo, hoje a situação é mais grave na África subsaariana. A região é o maior santuário de P. falciparum - espécie mais letal para o homem - e abriga o Anopheles gambiae, a mais agressiva das cerca de 60 espécies de mosquito transmissor. Todo ano, 500 milhões de pessoas são infectadas pela malária, e entre 1 milhão e 2 milhões delas morrem - na maioria, crianças.

Além disso, nas áreas mais afetadas, a malária e suas complicações podem ser responsáveis por 30% a 50% das internações hospitalares e até 50% das consultas.

Nos casos mais graves da malária do tipo falcíparo, a febre e os calafrios típicos da doença são seguidos por uma anemia que provoca tontura, além de convulsões e coma. Por fim pode levar à falência do coração e pulmões, e à morte. Os sobreviventes podem ter seqüelas físicas e mentais ou debilidade crônica. Mas há pessoas como Ebrahim Samba, que se recuperam de uma enfermidade aguda sem conseqüências a longo prazo. Em 2002, em uma importante conferência sobre malária na Tanzânia, onde me encontrei com esse cirurgião que se tornou autoridade de saúde pública, esse paradoxo ainda intriga os pesquisadores, mais de meio século depois que Samba teve seu embate pessoal com a doença.

(...)

Por outro lado, a promessa de novas vacinas não deve ser exagerada. Como os parasitas da malária são muito mais complexos do que vírus e bactérias contra os quais há vacinas, a imunização pode não ter jamais o mesmo impacto, por exemplo, das vacinas contra sarampo ou pólio, que protegem mais de 90% das pessoas. E, sem vacina, os problemas com a malária continuarão a se disseminar. Encabeçando a lista de obstáculos estão cepas de P. falciparum resistentes a remédios, que se alastraram primeiro pela América do Sul e pela Ásia, antes de migrar para a África. Em seguida, estão os mosquitos resistentes a inseticidas, que sabotam a infra-estrutura de saúde pública, e a pobreza extrema que prejudica os esforços para prevenir infecções. Por fim, a pandemia de HIV/aids na África piora as coisas, pois compete por preciosos recursos destinados à saúde e desencoraja o uso de transfusões de sangue para tratamento de anemia malarial severa.

Lições da História
Quando dou palestras sobre malária para pessoas da área médica, gosto de mostrar um mapa da sua geografia passada. Freqüentemente, a audiência fica surpresa ao saber que essa moléstia nem sempre esteve confinada aos trópicos - até o século XX, afligia locais hoje tão improváveis quanto a Escandinávia e o meio-oeste americano. Os eventos relacionados à saída da malária das zonas temperadas e, mais recentemente, de amplas regiões da Ásia e América do Sul são reveladores tanto de seus laços perenes com a pobreza quanto de sua biologia.

Tomemos, por exemplo, o recuo da malária de um dos seus últimos baluartes nos Estados Unidos - o sul pobre e rural. Os acontecimentos decisivos se deram após a Grande Depressão, quando o exército americano, junto com a Fundação Rockefeller e a Autoridade do Vale do Tennessee (TVA) iniciaram a drenagem e aplicação de óleo em milhares de criadouros de mosquito, e a distribuição de quinino (droga herbácea da América do Sul) para expurgar os parasitas das pessoas. Mas os esforços não pararam por aí. Os engenheiros da TVA que levaram energia hidrelétrica também regularam o fluxo de água nas represas para isolar as larvas de mosquito e instalaram uma enorme quantidade de telas protetoras em portas e janelas. Avanços semelhantes no uso da água e na construção civil, em conjunto com o controle direcionado de mosquitos, fizeram a malária desaparecer da maior parte da Europa no começo do século XX. Em suma, o progresso econômico foi responsável pelo fim da malária. E à medida que a saúde das pessoas melhorava, as economias locais, por sua vez, cresciam.

Depois disso veio a época de ouro do DDT (diclorodifeniltricloroetano). Depois de as forças militares usarem o pó umedecido para atacar o mosquito nas áreas acometidas por malária no Pacífico durante a Segunda Guerra, a pulverização seletiva dentro das casas tornou-se o foco da erradicação mundial da malária. Por volta de 1970, o DDT, a eliminação de criadouros e o uso de drogas antimalária livraram da doença mais de 500 milhões de pessoas - cerca de um terço de todos os que anteriormente viviam sob ameaça.

A África subsaariana, entretanto, sempre foi um caso especial: com exceção de um punhado de programas-piloto, nunca foi implementado um esforço sustentado de erradicação. Em vez disso, a disponibilidade de cloroquina - fármaco artificial e barato, semelhante ao quinino, introduzido depois de guerra - fez com que países com parcos recursos substituíssem operações de pulverização caras e tecnicamente difíceis por profissionais de saúde pública solitários. Distribuindo comprimidos a praticamente qualquer pessoa que tivesse febre, esses profissionais salvaram milhares de vidas nas décadas de 1960 e 1970. A partir daí, a cloroquina lentamente começou a perder a eficácia contra o plasmódio. Restando pouca infra-estrutura ou especialistas para combater o terrível mosquito vetor, um recrudescimento das mortes era tido como certo.

(...)

Combate ao Mosquito
Anos atrás, eu achava que todo mundo sabia como a malária infectava o ser humano: através da picada noturna de um mosquito Anopheles carregado de parasitas. Hoje já estou inteirada da realidade. Mesmo alguns dos mais inteligentes residentes de comunidades atingidas pela malária ainda acreditam que um espírito mau ou certas comidas causam a doença, fato que enfatiza outra necessidade urgente: melhorar a informação em relação à doença. Contudo, muito antes de Ronald Ross e Giovanni Batista Grassi descobrirem, no século XIX, que a malária é transmitida por mosquitos, indivíduos sagazes já concebiam maneiras de evitar as picadas do inseto. Quase cinco séculos antes de nossa era, Heródoto relatou em sua História como os egípcios que viviam em planícies pantanosas protegiam-se com redes de pesca. Impregnadas com óleo de peixe, elas podem ter sido os primeiros tecidos com repelente da história.

Mas foi só na Segunda Guerra Mundial, entretanto, quando forças americanas no Pacífico Sul embebiam mosquiteiros e redes de dormir em DDT 5%, que os inseticidas e tecidos foram formalmente utilizados em conjunto. Depois que a opinião pública virou-se contra o DDT, tratar os mosquiteiros com inseticidas biodegradáveis - os piretróides - foi o próximo passo. Isso se mostrou revolucionário. O primeiro uso conjugado de mosquiteiros com piretróide e drogas antimalária, descrito em 1991, cortou pela metade a mortalidade em crianças com menos de 5 anos em Gâmbia. Testes subseqüentes, sem as drogas, em Gana, no Quênia e em Burquina Fasso confirmaram tendência semelhante. Famílias e comunidades inteiras se beneficiaram desses mosquiteiros - mesmo pessoas que não dormiam sob eles.

Porém, mosquiteiros tratados com inseticida também apresentam limitações. Só funcionam contra mosquitos que picam dentro de casa e durante as horas de sono - comportamento que não é universal. Mosquiteiros também tornam o ambiente quente, desestimulando seu uso.

Continuação da matéria, está no site www.sciam.com.br
Reportagem da revistra Scientific American Brasil - Mês Março/2006



:: Por PaTrO | 4:19 PM | Comentários ::

Quarta-feira, Março 01, 2006

O Ataque Silencioso da Clamídia



Sorrateira e persistente, ela é uma das mais agressivas doenças sexualmente transmissíveis. Principal causa evitável de cegueira, também está associada a doenças do coração. Para desenvolver vacinas e tratamentos contra a bactéria, os pesquisadores tentam decifrar suas estratégias de sobrevivência e disseminação no organismo.

Boa parte da população ocidental sabe que a clamídia é uma das doenças sexualmente transmissíveis (DST) mais comuns. A palavra que a designa, porém, é um termo mais amplo, e se refere a um gênero de bactérias causadoras de uma série de doenças graves. Um africano, se questionado sobre a clamídia, provavelmente dirá que moscas transmitem essa infecção a crianças, causando conjuntivite. Essa doença - provocada por uma linhagem de Chlamydia trachomatis (a mesma espécie que causa as DSTs) - pode levar ao tracoma e posteriormente à cegueira.

Nos países industrializados, uma espécie transmitida pelo ar, C. pneumoniae, causa resfriado, bronquite e cerca de 10% dos casos de pneumonia adquirida fora do ambiente hospitalar. Os pesquisadores têm tentado associar a C. pneumoniae à aterosclerose, estreitamento dos vasos sangüíneos que leva a ataques cardíacos e derrames cerebrais.

Como as clamídias são bactérias, antibióticos são capazes de impedir o desenvolvimento das infecções produzidas por elas. Infelizmente, porém, as doenças causadas por elas muitas vezes não são detectadas e não são tratadas. As infecções genitais, por exemplo, raramente produzem sintomas logo no início. Nos países em desenvolvimento, onde o tracoma é preocupante, as pessoas freqüentemente não têm acesso a tratamento nem higiene adequados. Muitas das cerca de 600 milhões de pessoas infectadas com uma ou mais linhagens de Chlamydia não recebem os cuidados médicos necessários antes de as conseqüências se tornarem irreversíveis.

Continuação entre no link Scientif American Brasil

:: Por PaTrO | 5:14 PM | Comentários ::